Você me traz café de manhãzinha, na cama. Café quente em um copo de 300 ml. A receita é 50 ml de leite e 100 ml de café. Com açúcar e nada pra comer. Eu tomo tudo de uma vez só, sem respirar e pulo da cama.
Nós vamos pra piscina. Enquanto toca umas músicas assim, meio lúdicas, você me filma nadando (temos uma câmera que filma embaixo da água), eu te filmo nadando e também deixamos a câmera parada pra filmar a gente nadando. O segredo é não falar nada. E nadar. Eu saio da piscina correndo. Você vai atrás de mim. Eu fico correndo em círculos e você atrás. Eu mudo o sentido e te jogo na água. E a música muda.
Agora eu canto e danço. Você tem que fazer cara de iludido, se não, não dá certo. E tenta dançar junto. Claro que você não sabe dançar bem e nunca ouviu essa música antes, mas você tem certeza que quer ver isso todos os dias da sua vida. E é essa hora que a gente se beija. Sem meleira, é só bonitinho. Mas já temos fome e voltamos pra minha casa.
Macarrão. Adoro Macarrão. E você também, ou pelo menos finge gostar. De sobremesa mousse de maracujá. Eu que fiz tudo. E eu que lavo a louça, enquanto você deita no sofá e assiste alguma superprodução antiga, que hoje é bem trash e ri sozinho. Eu acabo minha parte de dona de casa rápido e vou assistir também.
Claro que esquecemos do filme, conversamos sobre nada e sobre tudo. Não deixe eu dormir. Se eu durmir, estraga. Entao eu não dormi e bebemos um vinho enquanto isso. Quando um parecer dez, pintamos um quadro. Uma tela grande, beeem grande. O desenho, bom, eu não não gosto de coisas sem sentido... Vamos pintar um casalsinho brega, correndo de mãos dadas, com o contorno bem preto e colorido com guache. Quando ficar pronto, colocamos na parede do meu quarto. Não sei em qual ainda, porque as paredes estão todas lotadas de coisas, mas a gente dá um jeito.
Você me leva, no seu carro, pro alto do morro, lá na favela, pra eu ver a cidade toda iluminada, de noite. É a coisa mais linda do mundo. Me sinto uma deusa. E ao mesmo tempo, me imagino lá embaixo, como uma mortal inútil, que só faz número e mais sujeira. Então aparece um cara com asa delta e nós pulamos, mesmo você morrendo de medo. Aterrissamos em uma avenida, sem carros e pessoa nenhuma. Vamos pra uma lanchonete na esquina. Bebemos um pouco, conversamos um pouco. Não chame nenhum amigo, eu odeio eles. E discuta sobre a indústria fonográfica e música comercial comigo. Depois me leve pra casa, com brilho nos olhos e me amando para sempre. Só não faz muita cara de bobo... Ah, você pode falar meus defeitos, eu vou ficar irritadinha e vamos brigar por cinco minutos, que é o tempo que eu chego em casa. Quando entramos no elevador, eu já esqueci isso e você também, porque estamos alegres.
Vou deitar e dormir. Você não. Abra a janela, regue a minha plantinha. Pegue o quadro que pintamos, a fita que está dentro da câmera, as suas roupas jogadas no banheiro, apague qualquer vestígio seu. Eu não vou esquecer, mesmo não tendo nada pra lembrar.
Depois disso, vá embora. E tenha a certeza que eu te acho a pessoa mais criativa, incrível e manipulável do mundo, porque matou todas as minhas vontades.